PONTO ZERO

“(…) levar a linguagem ao ponto zero, ao ponto da indeterminação infinita, da infinita liberdade.”

José Ángel Valente

 

A exposição de José Patrício transformou-se em intervenção site specific, o que significa que não é uma mera peça de repertório, mas uma obra em si, porosa, que afeta e se deixa afetar in situ pelas circunstâncias ou pelo contexto circundante (leia-se o espaço-nave expositivo). E também que sabe partir de zero para chegar a um destino diferente, novo, ainda que se vincule remotamente com algumas peças anteriores do artista. Neste caso, e talvez de forma muito ousada, a sempre laboriosa geometria construtiva do artista se comporta de forma diferente, ganha novos limites e escala, ou melhor, abriga novas dimensões (conceituais, sensoriais, espaciais), pois se aligeira da suma de números, fragmentos, partes e cores -sempre tão característico de suas obras- e como se fosse o seu trabalho mais oriental, se constrói pela plena subtração ou ascese –redução mais que ampliação –, pela elaboração de um ponto zero -uma origem ou matriz visual que irradia e magnetiza o espaço, resultando numa obra sintética (que olha em parte para si mesma) e ao mesmo tempo expandida (que olha para fora de si mesma), onde somos convidados a estabelecer uma sutil correspondência, sentir sua reverberação.

De fato, sobre a configurada construção do novo piso do SESC o que se projeta é um quadrado negro sobre uma superfície branca, ao contrário da intervenção na parede do fundo da sala, um quadrado branco sobre superfície negra, tudo feito com simples pastilhas arquitetônicas; em outras palavras, o que se configura é uma epifania em preto e branco (cores também da marca pictórica do artista), em que até a própria luz do sol com suas nuances variáveis é também incorporada. Pois ante nossos olhos há uma experiência artística marcada pela leitura da arquitetura, a respiração da luz e a própria construção escultórica. Assim, converge a física objetiva da arquitetura como dado real e a física mais aleatória da luz que entra pelos janelões, trazendo o diálogo entre o imaterial e o material. Ou então entre o mutável e o imutável, como outros nomes do acaso e do método, duas forças sensíveis reconhecidas de José Patrício.

Com efeito, neste díptico sui generis de Ponto zero (título próximo a outro anterior do artista, diga-se de passagem, Zero jogo, 2005), não deixa de existir um lado metafísico – um horizonte perceptivo além das formas que vemos –, uma redimensão além das coordenadas do olhar, certo infinito à vista – e que a arte, todavia oferece melhor que outras instâncias da vida protocolar. De fato, a obra se estende e se entende com um mirante de paisagem para atingir outro estágio de contemplação e sinestesia -outra relação sensorial e cognitiva-, aquela livre indeterminação que faz parte de certa arte do silêncio ou de seu sublime eco sonoro.

Este texto foi originalmente escrito como apresentação da exposição individual de José Patrício Ponto Zero, no Sesc Santo Amaro, São Paulo, em abril de 2017.