OS DOMÍNIOS DO JOGO

Fixados nas paredes feito pinturas, espalhados pelo chão como tapetes, as aglomerações quadriláteras urdidas à base de pedras de dominós por José Patrício afiguram-se como labirintos. Mas o olhar percorre rápido o entrechoque das pedras que os compõem, a floração descontínua e iluminada de cores, esquecido da tarefa de decifrá-los. Porque parece mesmo ser suficiente enlevar-se com a trama das partes, as mudanças repentinas de padrões cromáticos, deixar-se capturar por esses mosaicos.  Mas o artista não quer só isso, até porque sabe que muito cedo o olho se saciará. A sensação de caos não lhe é suficiente e o jogo tem no fútil somente seu princípio. O seu domínio se estende a outros domínios. Seu jogo, como qualquer jogo, tem outras ordens além daquelas que se vê de imediato; ordens ocultas, como, por exemplo, as regras que presidem o doméstico jogo de dominó, em que as pedras, base material desse projeto construído por Patrício, são arranjadas de pé e de costas justamente para que cada jogador não consiga espreitar e prever os lances dos outros.

O lance artístico de José Patrício apóia-se, pois, no banal, apenas para demonstrá-lo o imenso contrário disto. O jogo de dominó, ampliado na maioria dos trabalhos apresentados nessa exposição em combinações efetuadas, em cada vez, entre cento e doze dominós – o que leva cada uma a reunir um conjunto de três mil cento e trinta e seis peças, mostra-se uma máquina que opera a meio caminho entre a razão e o absurdo. Mas todo jogo, pode-se argumentar, trafega por essa trilha mínima. Pois se suas regras são ditadas pela razão, o mesmo já não se pode dizer, para começo de conversa, do agradável desperdício de tempo que jogá-los supõe. Veja-se, por exemplo, e mais uma vez, o dominó: todo o objetivo consiste em estancar o crescimento da trama arbórea estirada sobre a mesa – número chama número, um fragmento imanta-se ao outro -, o que se obtém quando um dos jogadores é o primeiro a se livrar de sua última pedra, casando sua ponta numerada com a ponta numerada de uma outra largada pelo seu oponente. Quanto cuidado, expectativa, surpresa, contentamento ou frustração, ainda que em pequeno grau, estão aí envolvidos. E tudo isso sem que saiba exatamente de que é que serve semelhante exercício, se é que serve. Não importa, o objetivo do jogo, no que se afina com o mais puro exercício filosófico, resolve-se no jogar.

Mas o jogo de José Patrício avança em vários sentidos. A começar pelo da arte mesmo. Pois o que dizer dessa pintura realizada sem pincel, dessa vertigem visual vazada sem virtuosismo, só com o gesto metódico e paciente – em alguns casos extraordinariamente paciente -, de ir arranjando cada fragmento do dominó ao redor de um pequeno quadrado nuclear, um quadrado com a mesma dimensão da metade de cada pedra? À apropriação de um jogo comum segue-se uma seqüência interminável de gestos mínimos e repetidos, sem o tremor de uma emoção, sem o emprego de músculos. Entretanto, quanta força aí liberada.

Do vazio quadrangular inicial, a forma, ao lado de uma outra forma simétrica e rigorosamente submetida ao mesmo princípio – afinal, não é um jogo que decorre do jogo de dominó? – vai se espiralando em movimentos lineares, diretos e retos, que regularmente se quebram em ângulos de noventa graus e que se interrompem na altura em que se findam as pouco mais de três milhares de pedras. Cada trabalho é um díptico, uma versão aumentada de uma pedra de dominó.

E agora será talvez o caso de fazer notar que tanto as cores quanto os números não são organizadas ao acaso. Ainda que aparentemente embaralhadas, as cores, tendo na maior parte das vezes o preto como padrão invariável, seguem critérios distintos, determinados a partir de seu caráter mais ou menos expansivo – do branco, amarelo e vermelho, ao azul, cinza e preto -, como também a partir da ênfase que se queira dar ou não ao sentido centrífugo ou centrípeto da forma. Homologamente, as pedras, que com seus pontos gravados nas superfícies são matéria de natureza dupla, que juntam apelo ótico com sua condição de signos abstratos ligados à noção de tempo e medida, são arranjadas em ordens regulares. Assim, enquanto, por exemplo, o quadrado da direita progride das pedras vazias àquelas que combinam esse vazio com o um e assim sucessivamente, até atingir o cerne irradiante rodeado por pedras divididas entre seis e seis, o quadrado da esquerda evolui em sentido inverso: sua rotação principia no silêncio que orbita em torno do vazio branco até atingir seus limites externos sob a forma de um ruído exaltado, que se propaga velozmente em direção ao espaço ambiente colocando-nos sob o risco do ensurdecimento.

Investindo exclusivamente em pedras de dominós e confundindo-nos com seus qüiproquós visuais, José Patrício demonstra-nos que a matéria mínima aliada a gestos discretos são suficientes para o fabrico de labirintos.

Este texto foi originalmente escrito como apresentação da exposição individual de José Patrício 112 Dominós, na Galeria Nara Roesler, São Paulo, em novembro de 2003.

THE DOMAINS OF THE GAME

Fastened to the walls like paintings or laid out on the floor like rugs, the quadrilateral arrangements of domino tiles appear to be labyrinths. But the eye all too quickly skims over the starkly contrasting tiles they are composed of, and the irregular, brightly lit blossoming of colours, without bothering to decipher them. Contentment enough it seems to be enraptured by the weaving together of parts, the sudden changes in colour pattern, to let oneself be captivated by these mosaics. However, the artist’s intention is not confined to this. After all, he knows that the eye would all too soon have had its fill. The impression of chaos is not enough for him and futility is only the beginning of the game. Its domain extends into other domains. This game, like any other game, has other rules that go beyond those that are immediately apparent; hidden rules, such as, for example, those that govern the parlour game of dominoes. In the game of dominoes the tiles, which form the material base of these pieces by Patrício, are placed upright with their back to the opponents, precisely to prevent the players from seeing the value of one another’s tiles and thereby predicting one another’s moves.

José Patrício’s artistic move, thus, starts out from the banal only to reveal the immensity of its reverse. Each piece is composed of several combinations of an expanded set of 112 domino tiles, so that each brings together a total of 3,136 tiles. As a whole, the piece can be viewed as a machine that operates mid-way between reason and the absurd. But every game, it can be argued, runs this fine line. For, if its rules are dictated by reason, the same cannot be said, for a start, of the pleasurable waste of time that playing it entails. Have another look, for example, at dominoes. The whole object of the game is to staunch the growth of the tree-like pattern spreading out over the table – one number attracting another, fragments being drawn to other fragments. This occurs when one of the players is the first to play his last tile, matching its pips with one played previously by an opponent. What care, surprise, contentment or frustration, albeit small in scale, is involved! And all this without knowing exactly what the purpose of such an exercise is, if indeed it does serve a purpose. It doesn’t matter; the object of the game, in keeping with the purest of philosophical exercises, is determined from within the game itself.

José Patrício’s game, however, proceeds in various directions. Beginning with the game of art itself. What, for instance, can we say about this painting executed without brushwork, of this visual vertigo produced with no virtuosity beyond the methodical nature of the gesture and the, in some cases extraordinary, patience invested in arranging each domino fragment around a small blank square at the core, the same size as half a domino tile? The appropriation of a commonplace game is followed by an interminable sequence of minimal and repetitive gestures, without so much as a twinge of emotion and no expense of muscular effort. Yet, what power is unleashed!

Starting out from the initial quadrangular blank at its centre, the pattern spirals in linear movements, straight and direct, broken regularly by 90 degree angles and stopping only when little more than three thousand tiles have been used up. Alongside, another symmetrical spiral follows exactly the same principles. After all, what would we expect from an artwork based on the game of dominoes but another kind of a game? Each piece is a diptych, a blown up version of a domino.

And now it is perhaps time to note that neither the colours nor the numbers are organised randomly. Although apparently jumbled up, the colours, predominantly blacks, follow a particular order, determined by the degree of warmth they transmit – from white, yellow and red, to blue, grey and black – and also by the impression of centrifugal or centripetal motion that the artist desires to impart. In like fashion, the tiles, whose pip-marked surfaces confer on the material a twofold character – allying visual appeal to their functioning as abstract signs linked to the notions of time and measurement – are arranged in a regular order. Thus, for example, the square on the right progresses from double blank tiles at the periphery to those that combine the blank with a single pip, and so on successively, until it reaches the radiant nucleus encircled with double six pip tiles. The square on the left meanwhile spirals in the opposite direction: its main rotational movement starts out in the silence that orbits blank half tile at the core and arrives at the outer rim with an exultant din, hurtling out deafeningly into the surrounding space.

By restricting himself exclusively to the use of domino tiles and confusing us with their visual quid pro quos, José Patrício shows us that all you need to build a labyrinth is the combination of a minimal material with a repertoire of discreet gestures.

This text was originally presented in Portuguese on the occasion of José Patrício’s individual exhibition, 112 Dominoes, at the Nara Roesler Gallery, São Paulo in November 2003.