A ORDEM TENDE AO CAOS

A produção plástica do artista José Patrício é uma tentativa de classificar as coisas e ordenar o mundo à sua volta. Suas últimas criações, enormes tapetes “tecidos” com peças de dominós, dão conta de um processo sistemático de recompor o universo a partir da lógica da arte, da matemática do acaso e das inúmeras possibilidades da vida. Mesmo em obras anteriores, o artista sempre lidou com a necessidade de organizar imagens e estruturar espaços. Agora, a proposta mostra-se um pouco mais radical, porque deixa de lidar com papel artesanal e tinta – sua matéria prima anterior – e passa a trabalhar com os jogos de dominó e as informações contidas em cada peça: dimensões, cores e números, por exemplo.

As instalações da série Ars Combinatoria, compostas por 2.500 jogos de dominós (70 mil peças), podem recobrir áreas de até 83 metros quadrados. Elas permitem uma montagem diferente para cada espaço no qual se inserem e o qual recriam. Permissão esta que é quase uma exigência. Para compor as obras, José Patrício repete, mecânica e simbolicamente, o gesto de Pandora. Vai destampando suas 2.500 caixas e deixando escapar delas todos os males do universo. Por último, vislumbra a esperança. E é justamente a esperança de deter o caos e restabelecer a ordem que lhe fugira pelos dedos que leva o artista a criar e recriar seus lúdicos tapetes.

Finda a sobrevida de cada instalação, as peças são retiradas do chão e recolocadas aleatoriamente nas caixas. Dessa forma, José Patrício deixa de ter controle sobre quais peças estão contidas nos recipientes. Onde está o seis-seis? Cadê os nadas? Quem ficou com as carroças? São informações que se perdem na diversidade de elementos dos jogos desarmados. Por isso, todas as remontagens trazem algum suspense durante a reabertura das caixas. Esse fator surpresa é a dose de casualidade e espontaneidade de que o trabalho necessita para se materializar sempre como algo novo.

Assim, Ars Combinatoria é a concretude de um exaustivo esforço construtivo elaborado a partir da lógica do acaso. Aos poucos, diante da possibilidade infinita de combinações entre peças, elementos como cor e forma vão se encontrando e definindo um novo mosaico para a arte. Tons que se apascentam ou contrastam, variações de cheios e vazios, pontos, números e brancos começam a fazer sentido pela aproximação com outras peças. Isoladas, são um monte confuso de nada. Reunidas, são a superfície que espelha uma lógica possível para a arte.

“Se, por um lado, as obras dessa série têm um diálogo com o racional e com a lógica, por outro há o acaso, a multiplicidade de possibilidades. Há uma gama de variações tão grande, que eu não posso controlar. Mesmo assim, o resultado do trabalho é sempre harmônico”, destaca José Patrício. O artista também chama a atenção para o caráter não só efêmero, mas precário da ordem que é proposta por Ars Combinatoria. “Como os jogos de dominó não são colados no chão, qualquer gesto brusco pode desordenar uma parte da obra. Há um caos latente que acaba por gerar uma tensão no público quando as pessoas ficam sabendo que aquilo tudo pode se desmanchar”, afirma.

Apesar do impacto visual da instalação, que não deixa a menor dúvida em relação à sua proposta “normativa”, as produções com dominó não foram as primeiras obras de José Patrício que apontavam para um enquadramento e ordenação da existência. “A arte ocupa todos os espaços da minha vida, é o que me move, é o onde eu encontro a possibilidade de buscar algo. A tentativa de organização presente no meu trabalho, na verdade, é um processo de estruturação de mim mesmo”, revela o artista.

Essa necessidade de dar visibilidade à sua própria estruturação através da obra de arte também permeou a fase anterior das criações de José Patrício. Na verdade, esses dois momentos de sua produção estão tão próximos que nem sequer podem ser chamados de “fases”, já que há um forte sentido de continuidade entre ambos. No estágio precedido pelos dominós, cabia aos quadros de papel artesanal a tarefa de explicar ao mundo a lógica normativa do artista. Como agora, José Patrício já trabalhava com imagens bidimensionais que tendiam ao tridimensional, sem nunca estar interessado em discutir os problemas da pintura, do plano ou da perspectiva, por exemplo. Em vez disso, sempre pesquisou possibilidades de composição e formas de enquadramento, criando malhas espaciais que serviam como suportes da obra e guiavam o observador dentro de nichos compartimentados.

No caso do trabalho em papel, José Patrício guiava o olhar do observador pela superfície do papel, revelando suas cores e texturas. Do mesmo modo que suas pesquisas atuais, as obras querem dizer do seu processo de produção. Parece que surgiram para contar como foram feitas, incorporando ao trabalho a sua genealogia e manufatura. Há algo entre a idéia da obra e o seu resultado que é parcialmente expresso nas produções do artista. Sobre essa questão, José Patrício deu o seguinte depoimento:

“Eu gosto muito do processo artístico. O papel artesanal, por exemplo, foi um material que passou a fazer parte da minha obra a partir da gravura. Eu não estava mais me satisfazendo em realizar ‘apenas’ a gravura. Então, senti necessidade de produzir também o suporte[1] para impressão. Com o tempo, o material foi de desprendendo da imagem impressa. Descobri que o trabalho com o papel poderia ser uma expressão em si mesma. Eu gostava de preparar a celulose para fabricá-lo. Depois, misturá-lo à tinta e elaborar várias composições. Nessa época, em combinava módulos de papel para criar telas maiores e a técnica, às vezes, definia o resultado formal da obra. Eram quadros que iam se revelando aos poucos. Essa espera também se repete na montagem dos dominós. A diferença é que com os dominós ainda estou no meio de uma pesquisa. Com os papéis eu fiz muita coisa, esgotei minha curiosidade. É uma fase que hoje está superada. Aliás, é da minha personalidade ir às últimas conseqüências e explorar o máximo do material em termos de expressão. Não sou de pular etapas. E esse esgotamento me levou a uma crise produtiva que, por sua vez, me encaminhou para as investigações plásticas das instalações com peças de dominó, cujas primeiras exposições vieram em 1999.”[2]

Tanto nas pesquisas plásticas com o papel, como nas recentes instalações feitas com dominós, José Patrício incorpora ao seu trabalho um mecanismo braçal e repetitivo de produção da obra que quer distanciar criador e criatura. “Algumas das instalações que eu proponho não exigem a minha presença. Posso enviar o projeto e as peças de dominó e qualquer um pode montar por mim”, enfatiza. Assim, o artista deixa clara sua intenção de discutir questões como a seriação e a autoria dentro do contexto de criação contemporâneo.

Essas pontuações conduzem os seus trabalho à criação de múltiplos[3] – que nem sempre são executados, diga-se de passagem. Desde que conquistou o domínio conceitual das instalações, José Patrício vem se desviando dos dominós para outros jogos e ampliando os formatos de apresentação de suas criações. Aos poucos, elas deixam o chão e se estabelecem em peças de parede. O artista também estuda algumas variações por meio de impressões industriais, como sign (vinil adesivo). Dessa forma, uma obra que surge centrada no pensamento e na lógica determinados por José Patrício ruma para a liberdade total à medida em que se concretiza, passando a pertencer ao universo caótico e sem controle da matéria.

 

[1] O suporte da obra de arte é o material utilizado para a sua realização. Uma pintura, por exemplo, pode ser realizada em suportes como madeira, tela, papel, eucatex, entre outros. No caso da gravura, existe o suporte da matriz, freqüentemente realizada em madeira, metal ou pedra, e os suportes da impressão, sendo o papel o mais comum deles.

[2] JOSÉ PATRÍCIO, Em entrevista concedida à autora, em 29 de novembro de 2002, no ateliê do artista.

[3] Múltiplos: termo empregado a partir da metade do século 20 para designar obras que, não sendo trabalhos de artes gráficas nem escultura moldadas, são concebidas para serem produzidas em número ilimitado, mediante diversos processos industriais. Não se trata de cópias industrializadas de uma obra original feita a mão pelo artista. O conceito de múltiplo representa uma revolução da atitude estética, cujo valor da obra de arte está ligado a sua capacidade de transmissão de imagens e idéias pela linguagem visual (fonte: Dicionário Oxford de Arte).