EXPLOSÃO FIXA

O dom de iludir a percepção visual até que a faculdade do olhar imante e reordene poeticamente a lógica e o sentido das coisas está na raiz da construção meticulosa de cada obra de José Patrício. Ao lançar mão de estratégias eminentemente formais e aritméticas, que desdobram e revigoram de forma vertiginosa os preceitos do projeto construtivista, o artista recifense cria um lugar original no campo da arte, na fronteira entre a pintura, o desenho e a assemblage.

Nesse processo, Patrício sequestra dos objetos industriais feitos em série, como botões, pregos, dados e peças de quebra-cabeça, suas funcionalidades no mundo para, então, inseri-los numa ordenação lúdica que visa exaurir e transpassar a objetividade matemática que eles obedecem ao serem assentados no plano.

Nosso olhar vagueia na vã tentativa de apreender a unicidade de cada parte, pois logo é tragado pela voragem resultante do conjunto, que em geral se organiza das bordas para o centro ou vice-versa. Outras vezes, os quadrados ou os retângulos do suporte que comportam tais combinações nos dão a clara sensação de que estão a ponto de implodir seus limites físicos para expandirem-se ao infinito.

São lúbricos e sensuais esses símbolos em permanente movimento que deslizam e embotam o nosso campo sensório. Uma explosão que, paradoxalmente, ao ser fixada na tela, rebela-se com sua condição estática. Uma explosão fixa que se expande em espirais que não cessam jamais. Vertigem óptica.

A esse conjunto de obras que perpassam a trajetória artística de Patrício, soma-se agora uma seleção de fotografias inéditas exibidas pela primeira vez nesta exposição do Instituto Ling. Aqui temos uma nova postura do artista. Ao sair do ateliê, onde trabalha incessantemente na construção de suas obras, para percorrer o mundo como um andarilho errante que porta uma máquina fotográfica, seu olhar se volta para a cultura popular, as vitrines e momentos de tensão entre forma, luz e arroubos cromáticos.

Se nas obras que o artista cria a partir de objetos industrializados observamos um rigor metódico que, ao ser exaurido pela repetição, precipita-se para o encontro com o acaso poético, nas fotografias o movimento parece se dar ao contrário: é o acaso, ou até mesmo o caos do mundo, que em determinados momentos oferta aos olhos desse curioso fotógrafo instantes fortuitos em que uma improvável harmonia conecta elementos díspares. Como escreve o poeta Octavio Paz: “A luta se resolve no poema, com o triunfo da imagem que abraça os contrários sem aniquilá-los”.

Esse triunfo da imagem, que expande os limites do próprio objeto, pode ser observado também na instalação “Espelhamentos” (2017), que Patrício criou a partir da observação da maneira como um camelô organizava os espelhos para vendê-los em sua improvisada banca na rua. Os caminhos labirínticos pelos quais comumente se aventura nossa visão ao deparar-se com as obras mais conhecidas de Patrício encontram na expressão popular o seu leitmotiv.

“Espelhamentos” é também uma metáfora precisa do jogo fotográfico. Ângulos, pontos de vista, reflexos e diluição das fronteiras entre objeto e representação e entre imagem e imaginação saltam com vigor surpreendente a partir do posicionamento dos espelhos, que visa criar um circuito de olhares rebatidos entre os próprios.

Deambulando entre o acaso da lógica e a lógica do acaso, Patrício nos apresenta um transbordamento do sentido racional que tende a enclausurar e a embotar a nossa compreensão sensível do mundo. Suas obras reivindicam uma acepção menos dogmática e mais lúdica da nossa relação com o entorno visível e nem sempre palpável. Um exercício libertário, uma nova e inspiradora forma de ser e estar no mundo.

STATIONARY EXPLOSION

The gift for deceiving the visual perception until it magnetizes and poetically rearranges the logic and meaning of things is the root of every work meticulously created by José Patrício. By using eminently formal and arithmetic strategies, which dramatically expand and revitalize the constructivist principles, the artist creates an original category in the artistic field, blurring the lines between painting, drawing and assemblage.

In this process, Patrício appropriates the functionalities of mass-produced objects such as buttons, nails, dice and puzzle pieces, and then sorts them in a playful way to exhaust and transcend their usual mathematical objectivity.

Our eyes try in vain to assimilate each unit – soon they’re drawn to the whirling arrangement, which is generally structured from the edges inwards or from the center outwards. At other times, the squares or rectangles that support those arrangements give us the clear impression that they’re about to implode their physical limits to stretch to infinity.

There’s a luscious quality to these symbols that slide sensuously in permanent movement and dull our senses. An explosion fixed on the canvas, paradoxically using its static condition to rebel. A stationary explosion expanding in endless spirals. Visual vertigo.

To the body of work Patrício created throughout his artistic career, we can now add this selection of never-before-seen photographs exhibited here at Instituto Ling. They reveal a new attitude from the artist. By leaving the studio where he incessantly works on his pieces to travel the world like a wanderer with a camera, Patrício turned his eyes to the popular culture, focusing on shop windows and other points of tension between shapes, lights and flashes of color.

While the works created with the mass-produced objects have a methodical accuracy that, exhausted by repetition, propels them towards poetic chance, the photographs convey the opposite: it is chance – or even the world  chaos – that occasionally provides fortuitous moments of improbable harmony between disparate elements, captivating the eyes of this curious photographer. As the poet Octavio Paz writes: “The conflict is resolved in the poem, as image prevails by embracing the opposites without annihilating them”.

The way image prevails in these photographs, expanding the limits of the objects themselves, can also be observed in the installation “Espelhamentos” (“Mirrorings”, 2017), which was inspired by the way a street trader arranged the mirrors he was selling on an improvised stall. The maze-like journeys our eyes experience when seeing Patrício’s best-known works now find their leitmotiv in the popular scene.

“Espelhamentos” is also an accurate metaphor for photography. The different angles, points of view and reflections and the blurred lines between object and representation, image and imagination, stand out with surprising energy as the position of the mirrors creates a circuit of reflected looks.

Wandering between what’s accidental in logic and what’s logical in chance, Patrício’s works transcend the rationality that usually restricts and dulls our sensorial understanding of the world. They require us to attribute a less dogmatic and more playful meaning to our visible but not always palpable surroundings. It’s a liberating exercise, a new and inspiring way of being in the world.