CAMALEÃO

“Quão necessário é petrificar-se – tornar-se duro, lentamente, lentamente como uma pedra preciosa – e finalmente permanecer ali tranquilamente para a alegria da eternidade”
(Nietzsche, “Aurora”)

A humanidade no intuito de conseguir viver coletivamente em um certo grau de harmonia instituiu certos parâmetros éticos, regras fixas e teoricamente inquebrantáveis no sentido de tornar possível tal vivência coletiva. Subverter tais códigos de civilidade, ignorando a onipresença e onipotência deuteronômica do nosso espírito cristão e legislador mais íntimo pode trazer consequências nem tanto confortáveis e higiênicas. De acordo com o filósofo Gaston Bachelard, a Arte e o Devaneio são solos pacíficos para a fertilização de um caminho nada usual, um caminho subversivo no sentido de impor uma nova roupagem a temáticas tradicionais, ressignificando-as. O trabalho que José Patrício vem desenvolvendo desde 1999 com jogos de dominó atua sobre essa perspectiva de subversão, ao utilizar-se de objetos do cotidiano para criar atmosferas e universos oníricos. De acordo com o próprio artista numa entrevista divulgada no site da Petrobrás: “A inserção de objetos do cotidiano no trabalho que venho desenvolvendo, de forma diversa daquela presente originalmente no readymade duchampiano, se dá no contexto de uma tradição plástico-formal de investigação de possibilidades poéticas dos elementos, utilizando o recurso à modulação e à acumulação como procedimentos para a construção da obra e dos seus significados.”

Em Ars Combinatória a regra aqui é representada pelo próprio suporte material utilizado: o jogo de dominó, onde cada pedra necessita de uma outra equivalente para um princípio de comunicabilidade. Por vezes o sentido do jogo é respeitado e assim é a mão do acaso que intervém de forma lúdica a criar para o espectador constelações, sistemas solares, tendo uma pequena lacuna arbitrariamente composta como a grande estrela e como o início de tal construção poética – Apolo – o sol dos antigos gregos – o profeta, já que o sol ilumina tudo aquilo que está à sua frente e vê, consequentemente, aquilo que irá suceder. Da expressão latina “Domino gratias” (que quer dizer “Graças a Deus”, muito utilizada pelos monges medievais para assinalar a sua vitória em uma partida), provavelmente se originou um nome para o tal jogo de dominó, onde a sorte e a memorização das pedras têm um papel fundamental em sua dinâmica. A partir da combinação das várias peças que compõem a atividade (28 peças enumeradas fatorialmente de 0 a 6 ) são tecidos verdadeiros tapetes persas plásticos, já que é o solo o espaço preferido pelo artista invertendo paradigmas que permearam o fazer artístico desde a Renascença Européia – o quadro e os limites de sua moldura. Mais uma vez aqui enfatizada a subversão estética proporcionando discussões sobre os limites que a Arte Contemporânea propõe ao almejar ser linguagem, meio comunicativo. Walter Benjamim em uma de suas afirmações no artigo A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica nos abre os olhos sobre estes limites contemporâneos no contexto estético e consequentemente social: “Toda tentativa de gerar uma demanda fundamentalmente nova, visando à abertura de novos caminhos, acaba ultrapassando seus próprios objetivos.” Os trabalhos que José Patrício desenvolve nestes objetos tão comuns ao cotidiano do ser latino-americano nos leva mesmo à contemplação de um possível infinto – possível, já que há uma finitude na quantidade de peças desarranjadas. O infinito aqui pode ser visível numa minuciosa observação e numa prática imaginativa saudável.

Infinito contemplativo, destinado ao olhar, as pedras dispostas não possuem nenhuma liga ou cola impossibilitando uma separação: soltas, qualquer descuido, pisar em falso ou tropeço por parte do observador desconstrói a harmonia caótica da obra sendo necessário uma paciência budista de orientação patrícia para novamente tecer tramas e mosaicos com o material proposto. Na obra intitulada 112 Dominós a necessidade de algo que ligue e torne inseparáveis as pedras do jogo – e assim a obra possa criar para si uma coluna vertebral possibilitando ao público uma visibilidade horizontal – parece querer evocar ou mesmo tornar sagrado o paradigma supracitado da Arte ocidental : A pintura, o quadro, a tela, tintas e pincéis. Prescindindo de todos estes artefatos, José Patrício consegue criticar e concomitantemente reafirmar a pintura, reatualizá-la e de quebra indagar-lhe sobre o salutar exercício de meditar e transcender.

Este texto foi originalmente escrito como apresentação da obra Camaleão de José Patrício, para o Projeto Jovem Crítica da Mostra Catálogo 2ptos, que ocorreu virtualmente através do site: http://www.doispontos.art.br, em setembro de 2007.