JOSÉ PATRÍCIO E O LUGAR INSTÁVEL

Não há como esquecer Mallarmé e seu famoso poema “Un coup de dés jamais n’abolira le hasard”. Em 1897, com aqueles raros versos dispersos na folha em branco, o poeta liberava a poesia de sua finalidade narrativa e soltava as palavras ao acaso, sem encadeamento lógico aparente, rompendo a sintaxe poética tradicional. Como um profeta, naquele instante luminar, prenunciava a função que os aspectos fortuitos teriam na determinação dos espaços poéticos, fazendo de seus versos um verdadeiro statement moderno.

Mallarmé une o Número ao Acaso. Conjuga a idéia do instrumento preciso, contábil, que se organiza em cadeias previsíveis e com raciocínio dedutivo, à idéia do jogo, da casualidade e do imponderável. É a ordem imersa na sorte; o pensamento perdido em meio a digressões inesperadas e desviantes.

Desde sempre, os homens tentaram vencer a natureza pela ciência, para se sentirem fortes e confortáveis diante de seus fenômenos incontroláveis, para entender e dominar o caos. E mais, nas construções humanas há sempre o desejo de vencer os deuses. A ciência instaura o campo da ordem, da certeza, do número, enquanto o terreno da natureza bruta e do divino impõe a fatalidade.

É nesse fluxo conflitante, nesse ponto perturbador que fica bem ali na fronteira entre a vontade da ordem e as determinações da fortuna, que se situa o trabalho de José Patrício.

O mesmo Número, que pode ser o condutor da dedução e da conseqüência, das fórmulas matemáticas e do rigor lógico, pode ser também o agente do jogo, do lugar onde a chance interfere e quebra as expectativas da ordem e do equilíbrio. Afinal, há sempre um eterno demônio rondando as harmonias, as utopias e a perfeição.

Organizar, planejar, projetar, são formas de criar a arquitetura da própria vida, de evitar o senso desequilibrado das paixões. Assim pensava Mondrian.

Desviar, perturbar, desassociar são maneiras de mostrar as inserções satânicas e fatais do destino, de declarar a própria desagregação inevitável do mundo. Assim pensavam os dadaístas.

A modernidade tendeu, em certos momentos, a optar por extremos; ora vigorando o espaço estável, ora o movimento; ora o equilíbrio clássico e a busca da clareza, ora o espírito informe, romântico, e as manifestações do orgânico.

A arte e a filosofia contemporâneas, porém, optaram por dissolver essas oposições, por abolir as dicotomias. Merleau-Ponty fala do mundo como uma “vegetação de sentidos”, com a possibilidade de se mover, não em um extremo, ou no outro, mas justo no entrelaçamento entre as coisas.

José Patrício faz da sua arte um testemunho possível desse entrelaçar, dessa flutuação que trafega entre o orgânico e o inorgânico, entre a construção e a ruína, enfim, entre a tendência classicizante da ordem e os imperativos acidentais do acaso. A obra faz o esforço da construção, estrutura-se mesmo a partir desse impulso, mas, por uma rebeldia qualquer da disciplina, vê-se simultaneamente impelida a se auto-desfazer e a se deixar invadir por pulsões desconstrutivas.

O trabalho com os “bonequinhos de plástico” pintados de preto pode ser um exemplo. Na versão de 1998, eles são dispostos com regularidade, compondo quatro segmentos alternadamente simétricos dentro da superfície quadrada do suporte. Esses segmentos definem-se pela direção – vertical ou horizontal – com que as filas regulares dos bonecos se organizam. Mas, apesar da composição ainda ser geométrica e ordenada, as unidades (bonecos) pulsam, e a área negra carrega um tom enigmático que ajuda a quebrar a neutralidade do espaço geométrico. Fica latente ali o desejo de interferir com o sentido subjetivo e metafórico sobre a ordem originalmente prevista.

Já a versão de 1999 subverte por completo a necessidade de compor, de projetar o espaço, tornando a união dos “bonequinhos” um magma impreciso e delirante, onde não se distingue mais nenhuma unidade, sequer se distinguem as próprias “figuras”. A superfície é tomada por uma convulsão desconstrutiva, obedecendo a um ímpeto romântico e tenebroso, que nos reporta às Portas do Inferno, de Rodin.

Esses dois trabalhos são exemplares, ao assinalarem o fato de que forças antagônicas podem interagir no conjunto de uma mesma obra, regidas sob princípios de uma só linguagem.

A série dos trabalhos com peças de dominó, mais recente criação de José Patrício, desenvolve o problema sob novas formas e suportes. É ainda a questão da ordem e do acaso que preside as imagens. Alguns “tapetes” compõem mosaicos regulares, com ricos acordes do preto-e-branco e ampla exploração da luz. Outros, porém, normalmente os coloridos, vão sendo “tecidos” ao sabor da união entre as cores, em articulações que parecem fazer a superfície se mover, sem definição de contornos ou separações nítidas entre as passagens das cores. Nos dois tipos de arranjos, contudo, a idéia em foco é a do próprio jogo, dessa atividade tensa que busca burlar o imprevisto com o controle e vice-versa. Nos primeiros, o artista determina o poder da ordem formal sobre a casualidade; nos segundos, conta com ela como instrumento da tessitura, permitindo que a imagem se crie pelos acidentes cromáticos do percurso. Os trabalhos com dominós montam e desmontam o jogo, alteram os caminhos da lógica das combinações normais, surpreendem pelo uso puramente imaginário de objetos tão assimilados na cultura popular. Além disso, José Patrício faz uma espécie de recuperação do readymade dentro de um contexto de cunho formal, o que significa uma ação quase inversa àquela que o readymade inaugurou em suas origens.

Merleau-Ponty disse que as coisas não existem porque se opõem umas às outras, mas graças às diferenças. A unidade só se estabelece graças ao múltiplo. A liberdade surge graças à objetividade. Os termos se entrelaçam; os opostos se buscam. José Patrício entende que a realidade é esse corpo maleável que pode ter várias faces, e mantém seu trabalho no limite entre a questão objetiva e subjetiva, entre o formalismo e o expressionismo, entre o movimento do gesto e o do pensamento; ele declara o lugar da ambigüidade como o lugar possível das relações plásticas e das relações humanas, oscilando entre o real e o ideal.

 

Este texto foi originalmente escrito como apresentação da exposição individual de José Patrício O Lugar Instável, no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, Recife, em agosto de 2000.

JOSÉ PATRÍCIO AND THE UNSTABLE PLACE

One can never forget Mallarmé and his famous poem Un coup de dés jamais n’abolira le hasard. In 1897, with those rare verses dispersed on the white sheet, the poet would free poetry from its narrative purpose and drop words at random, without an apparent logical link between them, breaking free from the traditional poetic syntax. Like a prophet, in that illuminating instant, he would announce the part which fortuitous aspects would play in determining the poetic spaces, turning his poems into a true modern statement. Mallarmé brings Number and Chance together. He unites the idea of the precise, mathematical instrument organizing itself in predictable chains with deductive rationale, with the idea of the game, the unexpected and the imponderable. It is order immersed in chance; reason lost in the middle of unexpected and deviant digressions.

Man has always tried to conquer nature through science, in order to feel strong and comfortable when faced with its uncontrollable phenomena, in order to understand and overcome chaos. Moreover, in human construction there’s always a desire to conquer the Gods. Science establishes the field of order, certainty and number, while the terrain of raw Nature and the Divine imposes fate.

It is within this conflicting flow, in this disturbing spot which sits right there on the boundary between the desire for order and the determinations of fortune, that the work of José Patrício resides.

The same Number, which can be the conductor of deduction and of consequence, of mathematical formulas and of the hardness of logic, can also be the agent of the game, of the place where chance interferes and breaks the expectations of order and equilibrium. In the end, there’s always an eternal devil circling the harmony, the utopia and perfection.

To organize, to plan and to project are means to create the architecture of one’s own life, to avoid passion’s unbalanced sense. So thought Mondrian.

To deviate, to disturb, to dissociate are means to show Fate’s satanic insertions, and to declare one’s own unavoidable desegregation from the world. So thought the Dadaists.

Modernity tended, in certain moments, to choose extremes; strengthening sometimes the stable space, sometimes the movement; sometimes the classical equilibrium and the quest for clarity, sometimes the formless romantic spirit and the manifestations of the organic.

Contemporary art and philosophy, however, have chosen the dissolution of such oppositions in order to abolish dichotomies. Merleau-Ponty talks about the world as if it were a “vegetation of senses”, with the possibility of moving, not within one extreme or the other, but exactly in the intertwining of things.

José Patrício makes, with his art, a statement on this intertwining, on this flow between the organic and the inorganic, between construction and destruction, in short, between the classical-oriented tendency for order and the accidental imperatives of chance. The work makes the effort of construction, builds itself upon this impulse, but, impelled by some rebel force of discipline, finds itself simultaneously propelled towards self-undoing and lets itself be invaded by deconstructive impulses.

The work with the little plastic dolls painted in black could be an example. In the 1998 version, they’re arranged in order, making up four alternating symmetrical segments within the square surface of the work. These segments are defined by the direction – vertical or horizontal – in which the rows of dolls are organized. Even though the composition is geometric and ordered, the units (dolls) pulsate and the black space is charged with an enigmatic shade which helps break up the neutrality of the geometric space. The desire to interfere with the subjective and metaphoric sense of the original order lies latent there.

The 1999 version completely subverts the necessity to compose, to arrange the space, turning the arrangement of the dolls into an uneven and delirious magma, where one cannot distinguish any unity, not even distinguish the very “figures”. The surface is taken over by a deconstructive convulsion, obeying a gloomy and romantic impetus, which reminds us of Rodin’s Gates of Hell.

These are two exemplary works which are marked by the fact that antagonistic forces can interact within the space of a single work of art, governed by the principles of one language.

The series of works made up of dominoes, the most recent creation by José Patrício, works on the problem with news forms and supports. It is still a question of order and randomness which presides over the images. Some of the “carpets” are composed of ordered mosaics with rich black and white chords and the spacious exploration of light. However, others, usually the colorful ones, are “woven” with the sense of harmony among the colors, in arrangements which seem to make the surface move, without definite outlines or clear-cut separations between the colors. In both types of groupings, however, the idea in focus is the game itself, this tense activity which tries to avoid the unexpected with control and vice-versa. In the first, the artist determines the power of the arranged order over chance; in the second, it is a weaving loom, allowing the image to be created by chromatic accidents along the way. The works with dominoes assemble and disassemble the game, alter the logical paths of normal combinations, surprise by the purely imaginative use of objects which are so assimilated by popular culture. José Patrício makes a type of recovery of the readymade within a formal context, which signifies an action almost the opposite of that which the readymade inaugurated in its origin.

Merleau-Ponty said that things do not exist because they oppose each other, but because they are different. Unity is only established because of multiplicity. Freedom surges because of objectivity. The units weave themselves; opposites search each other out. José Patrício understands that reality is this flexible body which can have many faces, and maintains his work at the limits between objectivity and subjectivity, between formalism and expressionism, between the movement of gesture and thought; he declares the space of ambiguousness as the possible space for artistic relations and human relations, oscillating between the real and the ideal.

This text was originally presented in Portuguese on the occasion of José Patrício’s individual exhibition, The Unstable Place, at the Museum of Modern Art Aloísio Magalhães, Recife in August 2000.