OS DOMINÓS: ABRINDO O JOGO E (DES)ORGANIZANDO AS REGRAS

RESUMO: As intricadas mudanças decorrentes da pós-modernidade têm gerando uma série de transformações na sociedade, impelindo e provocando constantes reformulações de valores e conceitos. Essas reformulações vêm afetando todas as esferas da vida humana, inclusive a trajetória da arte contemporânea. Utilizamos o trabalho “Os Dominós” do artista José Patrício, como referência para fazer reflexões sobre a arte na atualidade e considerações acerca de como o artista, trabalhando com a realidade imagética que o cerca, pode nos conduzir a interpelar e mediar nossa relação com o mundo.

PALAVRAS-CHAVE: Arte contemporânea, artes visuais, pós-modernidade, globalização.

Em 1998, foi lançado o programa Rumos Visuais Itaú Cultural com o objetivo de apoiar, divulgar e incentivar a produção cultural brasileira contemporânea, em diferentes áreas de expressão. O programa buscava, ainda, investigar o momento da arte brasileira na atualidade, evidenciar os caminhos trilhados e apontar suas direções. Para atingir este desafio foi organizado uma equipe composta pelos curadores Angélica de Morais, Daniela Bousso e Fernando Cocchiarale para coordenarem curadores adjuntos de vários Estados que deveriam realizar uma ampla pesquisa em todo país.

A pesquisa, levando em conta a qualidade e contemporaneidade da produção artística, recolheu 1.576 portfolios dos quais 300 foram pré-selecionados e reexaminados pela coordenação. Desta etapa, 84 artistas foram escolhidos para compor 14 mostras, que seriam montadas em diversas cidades brasileiras, de agosto de 1999 ao início do ano 2001.

Assim, a mostra Vertentes Contemporâneas reuniu um grupo de artistas joeirados pela primeira edição do programa. Os trabalhos expostos são, portanto, uma síntese das principais vertentes que compõem o painel atual das artes visuais brasileira.

Entre as obras que integram esta mostra está o trabalho do artista pernambucano, José Patrício[1]. Trata-se de uma instalação intitulada Os Dominós[2], modulada com 3. 136 peças de dominós (112 jogos). Subjugada, elegi-a como ponto de partida para algumas reflexões e inferências sobre a arte na atualidade. O que nos diz esta proposição? A obra está em consonância com a sua contemporaneidade? Existe um sentido atrás desta aparência? O que ela tem a nos dizer? Os Dominós inferem ou deveriam inferir algum prazer estético? Algumas indagações apressadamente me ocorrem enquanto contemplo a obra.

A arte se volta deliberadamente para a fantasia, ela mostra e dissimula, é, ao mesmo tempo, verdade e simulacro. Diante de uma obra de arte nos colocamos com toda a nossa totalidade: com a nossa história, nossos devaneios, sonhos, assombrações, paixões e razões interlaçados. Assim, para tecer a ação interpretativa, mais que conhecimentos teóricos específicos, chamamos a nossa imaginação. Daí subsistir o caráter polêmico e contraditório da arte, que faz com que as criações artísticas provoquem tanto fascinação quanto desconfiança e por este motivo, o que se diz sobre ela pode conter pluralismos e multiplicidades de sentidos.

A produção artística contemporânea apóia-se na permeabilidade existente entre as linguagens, técnicas e meios. A dificuldade em definir estilos formalmente demarcados faz com que se agrupe, sob o mesmo rótulo de “artes visuais”, as inúmeras expressões da atualidade. Por ser tão avessa às classificações, inclina-se a fazer referência ao órgão sensorial, envolvido mais diretamente no ato da percepção, para “etiquetar” as criações frutos desta permeabilidade de linguagens.

A liberdade de experimentação estética foi iniciada pelos modernistas no começo do século XX e vem provocando uma crescente quebra nos limites das técnicas artísticas convencionais, permitindo uma renovação na manipulação e na combinação dos meios expressivos. A experimentação passou a ser um método sistemático de trabalho tanto para os artistas de tendências expressionistas quanto para os que utilizavam enfoque científicos. A quebra dos limites e o alargamento das fronteiras espelhava atitudes equivalentes em outras esferas da sociedade, uma força libertadora que se punha contra a opressão de desígnios e paradigmas pré-estabelecidos.

A marca no caráter científico empregado nas investigações estéticas foi, presumivelmente, influenciada pelas novas idéias que vinham sendo discutidas em praticamente todas as áreas da atividade humana e pelos importantes avanços científicos e tecnológicos que, com facilidade e com uma rapidez cada vez maior, passavam a alcançar – por meio dos veículos de comunicação de massa -, os diversos quadrantes deste planeta.

Estas circunstâncias revelaram-se propícias às tendências modernas, cujas intervenções criativas eram marcadas por mudanças nas regras do jogo. O distanciamento das normas tradicionais clássicas favoreceu uma valorização da experimentação, levando os artistas a criarem apoiados em suas concepções pessoais de mundo. O modo de olhar de cada artista e a pluralidade de visões passaram a conduzir as proposições visuais.

O final da Segunda Guerra trouxe transformações em vários campos de ação. O expressionismo abstrato de Pollock passa a ser acolhido no meio artístico e intelectual. Fustigados pela experiência trágica das guerras – e outras vicissitudes – artistas de diversas partes do mundo, expressaram, de maneira semelhante, suas desilusões. Outras tendências, várias modalidades de figuração, concretos/abstratos, emergiram e se difundiram rapidamente. O crescimento de grandes centros urbanos, os progressos técnicos alcançados na difusão e disseminação de imagens e sons intensificaram o processo de internacionalização do campo da vanguarda.

Em conjunto, esses elementos irão influenciar nas trajetórias do universo estético e do universo social. A sociedade do século XX é conduzida por um processo gradual de internacionalização, que se inicia após a Segunda Guerra Mundial, e desemboca no fim do milênio na globalização. Essas circunstâncias favorecem uma predisposição à quebra de referenciais, uma das principais características da modernidade contemporânea, como faz notar Marc Augé em “El sentido de los otros[3].  Neste mesmo sentido, Lúcia Bueno, que analisa como se dá a globalização nas artes visuais, observa:

“Um fenômeno ligado à globalização, a experiência existencial da desterritorialização emerge pela primeira vez nas sociedades marcadas pela mobilização das massas, na criação da nação. Indivíduos desenraizados dos núcleos de origem – muitas vezes transformando esta condição de deslocamento num estado permanente – desenvolvem uma visão de mundo renovada, livre dos condicionamentos que até então haviam mediado sua relação com a realidade.” (Bueno, 1999, p.20).

A maioria dos estudos coincidem em alguns pontos ao alegar que o traço marcante do modernismo foi a atitude contestadora e revolucionária de artistas e intelectuais contra o conservadorismo de toda natureza. O pós-modernismo, embora seja um conceito muitas vezes utilizado com imprecisão, está ligado à emergência da sociedade pós-industrial, com seus excessos e as suas repetições, sendo, estes aspectos, um dos motores da crise de representação que se instaurou no meio artístico. Na opinião de Kumar:

“(…) a arte modernista questionou toda a maneira de representar a realidade, em especial a corporificada nas tradições realistas e naturalista (…). O posmodernismo, por outro lado, que de certa forma reativou os modos realistas e naturalistas da representação (como, por exemplo, na pop art), questiona a própria natureza da realidade representada. Sugere que essa realidade nada mais é do que outro conjunto de representações ou imagens.” (Kumar, 1997, p. 129).

A emergência de nova sensibilidade, de uma nova maneira de ser e o aparecimento de uma nova estética foram fortemente influenciadas pelas idéias pioneiras de Marcel Duchamp com seus primeiros “ready-mades”, que fizeram mudar o foco de atenção da forma para a linguagem, da apreciação para a concepção. Os secadores de garrafas, as rodas de bicicletas e os urinóis, objetos populares, passam a ser motivos de atração e podem ser apreciados esteticamente. Richter comenta:

“Em uma carta de 10 de novembro de 1962, ele me escreve: ‘Este Neodadá, que agora se chama neo-realismo, Pop-art, Assemblage, etc., é um divertimento barato, e vive daquilo que o Dadá realizou. Quando descobrir os ready-mades, tinha a intenção de desmotivar a algazarra estética. Mas no Neo-dadá usaram os ready-mades para neles descobrir um valor estético! Joguei-lhes o secador de garrafas e o urinol no rosto, como um desafio, e agora eles os admiram, atribuindo-lhes uma beleza estética.’ ” (Richter, 1993, p.290).

Andy Warhol, com suas criações, também teve o mérito de ter criado condições, no mundo das artes, para o nascimento de uma nova arte contemporânea. Nelas, Warhol alia ou combina estética e existência. Nosso cotidiano está fartamente embebido de realidades que são representadas nos outdoors, tvs, vídeos, computadores, CDs e outros meios; a ilusão imita a realidade, realidade e virtualidade se confundem e se superpõem. Warhol apresenta a repetição de objetos em silk-screen. Estes objetos, por si mesmo, se transformam em realidade. Assim, o ilusório não imita o real, mas torna-se real.

O tema modernidade versus pós-modernidade tem provocado vários debates. Quaisquer que sejam os postulados, a discussão sobre a condição pós-moderna deriva, de alguma maneira, do entendimento que se fizer sobre modernidade. O pós moderno não deve ser entendido, apenas, como um momento que se segue ao modernismo ou, ainda, como uma ruptura com os fundamentos modernistas. A  própria problematização, creio, já é pós-moderna, reflete o que vem ocorrendo na cultura e na sociedade contemporânea, a tentativa de entender e relacionar-se com as conseqüências da condição moderna.

O debate vem gerando uma multiplicidade de termos e significados que são, constantemente, apresentados e revistos. A falta de consenso – talvez devido à falta de distanciamento histórico – tem produzido uma série de definições que são imediatamente questionadas, inclusive a noção de historicidade no caso específico de arte. A multiplicidade de significados e suas redefinições dão força ao surgimento de um terreno propício à rejeição das certezas e a criação de novos paradigmas, uma das marcas do pós-moderno.

A imprecisão de contornos faz com que o pós-modernismo seja conhecido como o período do “des”: do desestabilizar, desdefinir, desordenar, desvendar, desapresentar, desconstruir. Segundo Derrida, desconstruir não é uma ruptura decisiva, mas desrecalcar o que foi dissimulado, desvelar, tirar as marcas para reinscrevê-las. Puxar os fios do tecido para  tecer um outro. Desconstruir é também descoser.

Neste contexto, como se insere “Os Dominós” de José Patrício? Descrevendo-o objetivamente quanto à sua materialidade – antes de nos envolvermos com outras formas de observação adicionais – , o trabalho do artista é constituído por um ajuntamento de peças, feitas industrialmente, que compõem o jogo popular de dominó. Estas peças são colocadas uma ao lado da outra, em combinações incontáveis, formando uma superfície que pode ser entendida como uma representação em uma espacialidade própria e se apresenta como uma apropriação do espaço bi e tridmensionais.

Quando objetos são apresentados dentro de um contexto de arte, eles são elegíveis para considerações estéticas, sua importância como objeto, ou sua razão de ser, tornam-se irrelevantes. As peças que constróem Os Dominós foram retiradas do âmbito das coisas insignificantes e colocadas no reino vivo das obras de arte. Esta condição predispõe a serem observadas de um modo particular. Um objeto artístico organiza-se sempre como um signo que pede leitura, ele nos desafia e nos interpela. Ao elegê-lo, estou admitindo que entre mim e este objeto houve um chamamento para o diálogo. Marcondes considera que “A interpretação não é a expressão do espírito absoluto. A arte nasce da atividade do artista; o artista é a origem da obra e a obra é a origem do artista, mas o conteúdo da obra excede a intenção do autor/artista.” (2001, p. 3). Segundo Derrida, o ato de interpretar já é, de certa forma, uma desconstrução, é valorizar o que está recalcado ou dissimulado e construir um novo texto.

Os Dominós de José Patrício não são jogados ao sabor do acaso, de modo arbitrário ou fortuito, têm uma coerência cartesiana, uma (des)ordem racional imposta pelo próprio jogo. A imagem obtida é, por conseguinte, resultante da experiência, não sensorial, mas intelectual, e compõem, na interpretação de Lígia Canongia[4], “mosaicos regulares, com ricos acordes de preto-e-branco e ampla exploração da luz.” O jogo de luz determina a vibração do ritmo e infunde uma tessitura mágica. A sedução é provocada, ainda, por uma inquietante quebra de expectativa, pelo jogo de “match/mismatch”. A desarmonia é advinda da consciência de que o jogo traz em si a idéia de chance, do imprevisível e do acaso, no entanto, é exatamente o antiacaso que desempenha o papel de musa neste trabalho. Ao invés de truques, as peças são colocadas meticulosamente com o intuito de atingir a subjetividade do espectador. Ou seja, a objetividade promove a subjetividade. “Como um Aladim das mil e uma noites pós-moderno, José Patrício estende seus tapetes mágicos diante de nossos olhos deslumbrados”, diz Marco Polo Guimarães na apresentação de um catálogo[5].

O jogo não foi jogado para provocar um desmacaramento irreverente de “obras sagradas”, mas é o próprio sepultamento da “obras sagradas”. É produto de um mundo onde as fronteiras foram dissolvidas para franquear a intercessão de vários universos – inclusive os visuais. – O senso comum nos leva a pensar que objetos fabricados em série são destituídos de originalidade e, portanto, contrapostos à arte, No caso de Os Dominós instala-se um paradoxo, a serialidade, longe de retirar a originalidade, acentua-a e a faz transcender.

José Patrício faz da sua arte um “ensaio visual” sobre a contemporaneidade com seus pluralismos e suas opções incessantes. Os sinais da globalização aparecem quando o trabalho desreferencia-se da cultura local, quando ele abre mão de qualquer vínculo com a arte nacional e/ou regional. Ela nos fala de uma sociedade envolvida em um redemoinho de mudanças onde as linhas divisórias já foram apagadas. A instalação questiona os espaços e os suportes, assentada no chão, permite a circulação do espectador, oferece uma diversidade de pontos de vistas possibilitando a polissemia de leituras.

Vivemos a época das incertezas  – apregoam os filósofos. Vivemos em um mundo onde os fatos são apreendidos de maneira fragmentada cujos estilhaços, não formam uma totalidade coerente. Existe um sentido detrás deste jogo? Num mundo turbulento, cada vez mais sem sentido, o artista cria, não para ser glorificado em museus, mas para encontrar significados. Os Dominós não são dominós, são parábolas da nossa existência

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AUGÉ, Marc. El sentido de los outros. 1a ed. Barcelona: Paidós, 1966.

BUENO, Maria Lúcia. Artes plásticas no século XX: modernidade e globalização. Campina: Editora Unicamp, 1999.

KUMAR, Krisham. Da sociedade pós-industrial à pós-moderna: novas teorias sobre o mundo contemporâneo. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.

MAFFESOLI, Michel. Elogio da razão sensível. Petrópolis: Vozes, 1998.

MARCONDES, Neide. (Des) velar a arte. São Paulo: Arte e Cultura, 1966.

____________ Instalação: arte em evento. São Paulo, ECA-USP 2001. Digitado.

MICHAEL, Archer. Installaton art. Londres: Calmam and King. 1995.

PESSIS-PASTERNAK, Guitta. Do caos à inteligência artificial. São Paulo: EDUNESP, 1993.

RICHTER, Hans, Dadá: arte e antiarte. São Paulo: Martins Fontes, 1993.

SANTIAGO, Silvano. (org). Glossário de Derrida; trabalho realizado pelo Departamento de Letras da PUC/RJ. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1975.

STILES, Kristine. SELZ, Peter. Theories and documents of contemporary art: a soucebook of artists writings. California: University of California Press, 1996.

 

CATÁLOGOS.

Rumos Visuais Itaú Cultural. Vertentes Contemporâneas, 1999/2000

O Lugar Instável José Patrício. Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães. 03 de agosto a 17 de setembro de 2000. Recife-Pe.

[1] Dados sobre o autor, em anexo.

[2] Figuras 1 em anexo.

[3] AUGÉ, Marc. El sentido de los outros. 1a ed. Barcelona: Paidós, 1996.

[4] Catálogo  O Lugar Instável  José Patrício. Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães. 03 de agosto a 17 de setembro de 2000.

[5] Catálogo O Lugar Instável  José Patrício.

 

Este texto foi originalmente publicado na Scientia et spes: revista do Instituto Camillo Filho – Ano 2, n.3 (2003) – Teresina: ICF, 2005. ISSN 1676-3815.