JOSÉ PATRÍCIO

Montada por diversas vezes em museus e galerias, a série de trabalhos com peças de dominó, sempre apresenta novas características, formas e variações cromáticas, resultantes da manipulação e das alterações conceituais propostas em cada exposição. A disposição das peças obedecem a critérios pré-definidos e às variadas dicotomias como: organização e acaso, imprevisto e controle, construção e liberdade expressiva, objetividade e subjetividade, distribuição aleatória e matemática que são  naturalmente abolidas e propositadamente reveladas ao expectador ao sabor das inúmeras interpretações e formas que possa adquirir. Se em algumas montagens, o acaso é determinante na construção e no resultado final da obra no espaço, em outras o artista pode requerer maior controle construtivo sobre as peças, agrupando-as por suas características intrínsecas: se coloridas, pela união entre as cores , se preto-branco, pelos números.

O jogo tem a sua lógica, mas inesperadamente o acaso se faz presente. As deduções e o controle sobre a forma se esvai e na junção e justaposição dos contrários – lógica e acaso – o pensamento vaga entre as possibilidades e limitações da racionalidade, da construção e da liberdade expressiva, determinando o próximo movimento. A mão faz e refaz e cada unidade se multiplica no espaço em variadas formas, criando uma nova unidade que também é múltipla. Jogo dos contrários, para criar o que não existe, um novo plano.

Fazendo um contraponto com outra série, 112 dominós de 1999/2000, na qual o os objetos encontram-se fixados em um suporte de madeira, tornando-a uma obra imutável, aqui as 78.000 peças não estão presas, o que cria uma tensão entre o mutável e imutável, rigidez e fragilidade, ordem e caos, a obra e público. Esta não se quebra, mas, a qualquer toque se desfaz.  Estranhamento e beleza. O mosaico de plástico colorido, feitura árdua e delicada, que  se estende no chão ocupando o espaço e que nos faz ver e pensar a unidade e o múltiplo, o monocromatismo ou as variações cromáticas, que invadem nossa percepção em cinetismos de cores, luz e movimentos.

 

Este texto foi originalmente escrito como apresentação da instalação de José Patrício, Ars Combinatoria, no Paço das Artes, São Paulo, em março de 2002.

JOSÉ PATRÍCIO

The series of works with domino pieces [by José Patrício] have been assembled a number of times in museums and galleries and always present new characteristics, forms and chromatic variations according to their manipulation and the conceptual alterations proposed in each exhibition. The layout of the pieces follows pre-established criteria and a variety of dichotomies such as: organization and chance, the unpredicted and control; construction and expressive liberty, objectivity and subjectivity, arbitrary and mathematical distribution. These dichotomies are naturally abolished and deliberately revealed to the spectator at the mercy of innumerable interpretations and forms that can be assumed. If, on some of the occasions when these works are erected, chance is determinant in their construction and final outcome in space, in others the artist may require more control over the construction of the pieces, grouping them by their intrinsic characteristics: if they are coloured, by their colour connection, if black and white, through numbers.

The game has its logic, but chance is unexpectedly present. The deductions and control over the form disappear and in the joining and juxtaposition of the opposites – logic and chance – the mind wanders between possibilities and limitations of rationality, construction and expressive freedom, which determine the next move. The hand forms and reforms and each unit is multiplied in space in various ways, creating a new unit that is also multiple. A game of opposites, to create what does not exist, a new plane, a new dimension.

In contrast with another series, of 1999/2000, 112 dominoes, in which the objects are fixed onto a wooden support, rendering the work permanent, here the 78.000 pieces are not attached, which creates a tension between the changeable and the unchangeable, rigidity and fragility, order and chaos, the work and its public. This cannot be broken, but at the slightest touch comes apart.  Surprise and beauty. The mosaic of coloured plastic, of arduous and delicate construction, which spreads over the floor and makes us see and think about unity and the multiple, the monochromatic or chromatic variety, that invades our perception in the synthesis of  colours, light and movements.

 

This text was originally presented in Portuguese on the occasion of José Patrício’s installation, Ars Combinatoria, at Paço das Artes, São Paulo, in March 2002.