APRESENTAÇÃO - O LUGAR INSTÁVEL

Como um Aladim das mil e uma noites pós-modernas, José Patrício estende seus tapetes mágicos diante de nossos olhos deslumbrados. Num deles, por exemplo, feito de peças de dominó branco, vários elementos se interligam. É, aparentemente, um quadrado, mas na realidade é uma espiral. Quer dizer, o que parece fechado em si mesmo, na verdade indica um devir permanente, um movimento perpétuo, aberto até o infinito. A obra pode terminar onde terminou mas poderia ter se estendido sob nossos pés, nos obrigando a pisar com delicadeza, como se pisássemos no significado de nossas vidas.

Há também nesta obra o tom da fragilidade, pois qualquer sopro de um vento mais forte pode destruí-la. E há ainda as inumeráveis possibilidades que contém, uma vez que pode ser reproduzida exatamente da mesma maneira, do mesmo modo que se pode recombinar as pedras em milhares de outras resoluções visuais. É, pois, em vários sentidos, uma obra aberta.

E se nestes “tapetes” José Patrício exerce o sentido da organização, nas outras obras, feitas a partir de pequenos bonecos de plástico, o exercício segue caminho oposto. O que se vê aqui é o sentido da desorganização. São como corpos carbonizados, mergulhados na lama petrolífera de nosso tempo insano. Seres-objetos, formas humanas despersonalizadas, em atitudes e expressões que nos remetem ao inferno dantesco. E se aqui, como nas outras obras, Patrício utiliza a repetição serializada de um mesmo módulo, enquanto lá nos acena com um universo mágico, aqui nos mergulha num mundo caótico.

É como se o artista nos apresentasse dois espelhos, um de costas para o outro, refletindo coisas totalmente diversas. Ou, como se oferecesse ao espectador uma estrada que se bifurca. E mostrasse que os dois caminhos, embora tão diversos, são igualmente fascinantes.

Este texto foi originalmente escrito como apresentação da exposição individual de José Patrício O lugar instável, no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, Recife, em agosto de 2000.

PRESENTATION - THE UNSTABLE PLACE

Like an Aladdin of one thousand and one post-modern nights, José Patrício spreads his magic carpets before our dazzled eyes. In one of them, for example, made out of white domino pieces, various elements interconnect. Apparently, it is a square, but it really is a spiral. That is, what seems closed in itself actually indicates a permanent act of becoming, a perpetual movement, open all the way to infinity. The work may finish where it did, but it could have extended itself under our feet, compelling us to step carefully, as if we stepped on the meaning of our own lives.

In this work there’s also a touch of fragility, for the blow of any stronger wind might destroy it. Besides that, it holds innumerable possibilities within, allowing it to be reproduced exactly the same way, or the pieces may be rearranged in thousands of different visual resolutions. It is, therefore, in many senses, an open work.

And if upon these “carpets” José Patrício exercises the sense of organization, in ther works, made out of little plastic dolls, the exercise follows the opposite way. What one sees here is the sense of disorder. They are like burned bodies, soaked in some petroleum sludge of our insane time

Beings-objects, depersonified human forms, with expressions and attitudes which send us to Dante’s hell. And if here, like in the other works, Patrício makes use of the serial repetition of the same module, while there he beckons us with a magic universe, here he immerses us in a chaotic world.

It is as if the artist presented us with two mirrors, back to back, reflecting fully distinct things. Or, as if he offered the spectator a bifurcating road. And as if he showed us that both roads, though being so distinct, are equally fascinating.

 

This text was originally presented in Portuguese on the occasion of José Patrício’s individual exhibition, The Unstable Place, at the Museum of Modern Art Aloísio Magalhães, Recife in August 2000.