JOSÉ PATRÍCIO, ARTESÃO E ARTISTA DO PAPEL

Fazer papel, artesanalmente, é uma experiência fascinante para o jovem artista plástico José Patrício. Ele não se contenta em usar papéis prontos e industrializados, nos seus trabalhos d colagem e gravura. Por isso ele mesmo faz e elabora os seus papéis, a partir dos próprios recursos das plantas – das cascas secas do caule, das fibras retorcidas e trituradas, das folhas umedecidas e reduzidas a pasta, dos resíduos de fibras diferentes, de restos aparentemente imprestáveis de vegetais, donde extrai os ingredientes para a sua experiência. Assim José Patrício vai elaborando e reelaborando os papéis feitos à mão, com uma perícia artesanal, que, de certo modo, lembra a paciência dos monges medievais, trabalhando no papel que seria o suporte material dos textos sagrados. Ou das iluminuras do evangelho.

Assim, José Patrício, em plena época de tecnologias avançadas, parece dar um salto mágico ao passado medieval e procura reconstituir a natureza vegetal, desvelando-a e revelando-a, através de uma expressão plástica profundamente ligada à preservação da ecologia.

Com perícia e meticulosidade, José Patrício vai criando os espaços brancos, salpicados de fragmentos amarelos, avermelhados, azuis ou verdes, de folhas e cascas incorporadas ao papel, recriado a partir dos ingredientes misturados e assimilados em uma nova superfície. Incorporação e intrusão desses ingredientes são os passos necessários para que o novo papel apareça, com os efeitos estéticos imprevisíveis, que lhe conferem a nota peculiar de originalidade. Daí as revelações inesperadas que ocorrem no papel elaborado com cascas de cebola, fragmentos de pétalas e de sementes, restos de fibras e de folhas marteladas, pedaços de caule triturados na água, ou remanescentes de uma planta selvagem, juntamente com os detritos do papel industrial associados a essa massa eclética. Do inesperado, vem a surpresa do artista/artesão, que encontra, no papel elaborado de modo tão paciente e criativo, uma representação simbólica da natureza, ao lado dos resultados do produto industrial, que é fruto da inteligência do homem.

Assim procedendo, José Patrício, como outros tantos artistas e artesãos, oferece uma resposta simples e criativa a essa sociedade de consumo insatisfeita com os seus próprios padrões, e que é tão exigente com o nível de eficiência e eficácia externa, a ponto de se esquecer, até, de valorizar a criatividade e a liberdade de expressão pessoal.

Desde que José Patrício se entregou, com amor e arte, a essa tarefa aparentemente anódina de fazer papel, na Escolinha de Arte do Recife, com a artista Thereza Carmen Diniz e os seus alunos, que essa aventura de beleza e de criatividade não mais parou. Nem pode parar. Cada vez, em cada experiência realizada, surge a sedução de fazer outros papéis, com ingredientes diversificados da natureza, no afã de criar e fruir a beleza.

Não seria esta proposta, também, uma resultante remota do espírito renovador da Bauhaus, que realizava experiências artísticas com os detritos da sociedade industrial de pós-guerra? Alguém pode questionar quais são as vantagens materiais desse labor artesanal do papel. É uma questão pragmática, que não desencoraja os artistas… O que importa, mesmo, é continuar criando formas de expressão do sentimento e da natureza. Importa continuar criando formas de beleza, como um dos modos de acreditar que o mundo pode ser melhor, partindo do que é simples e belo, como a natureza.

 

Este texto foi originalmente escrito como apresentação da exposição individual de José Patrício Papéis Artesanais, Universidade Federal da Paraíba / CCHLA / Departamento de Artes e Comunicação, João Pessoa, em outubro de 1983.