COMPOSIÇÕES

Em 1989, conheci a obra de José Patrício no Centro Cultural Adalgisa Falcão, o foco mais preciso de difusão da arte contemporânea pernambucana. O impacto equivaleu a ver alguém que coloca e resolve um complexo problema estético. O artista dá conta, ao mesmo tempo, de sua dimensão matricial e da atualidade artística mundial. Gravador de formação, José Patrício conserva o arsenal deste ofício no fabrico do papel reciclado. Percebe-se o que é prensa na formação dos módulos que compõem seus quadros e o que é gesto na mistura das pastas enquanto a obra está em processo. O gesto se interpenetra ao suporte, o autor produz integralmente o todo. A dimensão matricial está presente na forma azulejada. O azulejo, no Brasil colônia, habita privilegiadamente os conventos franciscanos, seja no Recife, Olinda, João Pessoa, Salvador ou Rio de Janeiro. Possui duas direções de sentido: centrípeta ou de recolhimento, pela destinação; e centrífuga ou expansiva, pela comunicabilidade estabelecida mediante o jogo de reflexos, criando um diálogo ininterrupto entre o homem no Novo Mundo e a natureza. A atualidade artística de José Patrício pertence ao extremo despojamento formal, que articula suas intervenções às da ”arte povera”. A cor acontece como receptáculo de luminosidades perdidas.

Não existe nenhuma atitude gratuita nas Composições. Aquele que não pertence à obra enquanto origem, não fará jamais obra, afirma Maurice Blanchot. O poder do fundo se conserva irradiante aqui, a tal ponto que diz algo a respeito da historicidade local. Nas edificações de papel do artista recifense, os limites intermodulares gritam durante toda a extensão da superfície pictural, como se tivessem sido traçados por “uma faca só lâmina”. As linhas supradeterminadas podem apontar para a rigidez das relações sociais tão bem espelhadas na planta da casa-grande do Engenho Noruega, desenhada pelo ex-estudante de arquitetura, Cícero Dias. Ou, se não, para uma nova distribuição das terras.

Esse texto foi originalmente escrito por ocasião da exposição A cor na arte brasileira, no Paço das Artes, São Paulo, 1990.

COMPOSITIONS

In 1989 i saw José Patrício’s work for the first time, at the Centro Cultural Adalgisa Falcão. It is the most precise focus of the diffusion of contemporary Pernambucan art. The impact was like watching someone set up and resolve a complex aesthetic problem. The artist easily draws on his roots and the current artistic world, simultaneously. An engraver by profession, José Patrício preserves the arsenal of this craft in the fabrication of recycled paper. The press can be seen in the formation of the modules that make up his works and the gesture can be seen in the mixture of the pastes as the work is in process. The gesture interpenetrates the support, the author produces everything integrally. His roots are present in the tilelike layout. Tiles in colonial Brazil were used to their best advantage in Franciscan monasteries in Recife, Olinda, João Pessoa, Salvador and Rio de Janeiro. They project in two directions: centripetal or reclusive, as befits their original use, and centrifugal or expansive, via the communicability established through the interplay of reflections creating a continuous dialogue between the New World man and nature. José Patrício’s artistic modernness involves his extreme respect for the formal; it is identified with the arte povera movement.Here color comes in as a trap for lost luminosities.

There is no gratuitous attitude in these Compositions. If one is not part of the origin of the work, he will never produce a work of art, Maurice Blanchot affirms. The background is maintained radiant here, to the point of saying something about the local historicity. In this Recife artist’s paper structures the intermodular limits scream all along the pictorial surface, as if they were slashed by a ”knife of pure blade”. The supradetermined lines may point to the rigidity of social relations so well reflected in the floor plans of the Engenho Noruega plantation house drawn by former architeture student Cícero Dias. Or they may call for a new kind of land distribution.

This text was originally presented in Portuguese on the occasion of A cor na arte brasileira, at exhibition catalog at the Paço das Artes, São Paulo in 1990.