Potência Criadora Infinita: a obra de José Patrício

Tudo o que existe no mundo, em sua variedade incomensurável, é constituído a partir de um número finito de átomos, que se recombinam para formar cada flor, cada fio de cabelo, cada pedra, cada pedaço de plástico. É uma quantidade imensa de partículas, de uma grandeza muito maior do que o intelecto humano consegue conceber. Enorme, inimaginável, porém finito. O que existe de infinito é a potência criadora de combinações entre esses átomos. A essa potência infinita damos o nome de Natureza.

A obra de José Patrício é um exercício de invocação dessa força criadora. A partir de um número fixo de elementos, como dominós ou peças de quebra-cabeça, Patrício elabora variações que jogam com as possibilidades sequenciais dos elementos escolhidos. Os trabalhos mais recentes do artista empregam peças de plástico idênticas, cujas cores variam em um gradiente de 22 tons de cinzas, que passam do branco ao preto. A economia tonal salienta a estrutura combinatória de cada obra, permitindo a identificação da regra geradora da singularidade de cada trabalho.

A tarefa do artista é conceber uma fórmula matemática para cada composição de peças dentro do gradiente de cinzas. Assim, em um trabalho, ele inicia no branco e segue até o preto, para então começar de novo a sequência, montada em carreiras espiraladas, da borda até o centro de um tabuleiro. Em outra obra, a mesma ordenação se inicia no centro e abre-se para as bordas. Em uma terceira, o gradiente segue linhas diagonais dos vértices do tabuleiro ao centro, e assim… finitamente. Ao contrário da Natureza, o tempo de que o artista dispõe para o exercício dessa potência criadora é finito.

A insistência de José Patrício na repetição do processo criador é um enfrentamento do doloroso limite de tempo disponível para cada ser humano criar. Nesse sentido, é possível compreender sua obra como um exercício a respeito do tempo. Cada objeto que sai do ateliê do artista não só carrega o tempo da artesania envolvida em sua confecção, mas, principalmente, guarda uma chave de compreensão da temporalidade. O que se decifra na contemplação demorada dessas espirais não é a regra formadora da sequência; mas sim o enigma fundamental: como, de peça em peça, de passo em passo, constituir um movimento de vida encantador, no tempo de que dispomos?

O tempo é também o elemento que transporta a obra de José Patrício das diretrizes definidas pelo Manifesto de Arte Concreta, de 1930, para a sensibilidade do Manifesto de Arte Neoconcreta, de 1959. O primeiro, lançado em Paris pelo artista holandês Theo van Doesburg, preconizava que a arte de uma nova era deveria seguir seis características, facilmente identificáveis na obra de José Patrício:

1. A arte é universal: produzidas em Pernambuco nos dois últimos anos, as composições apresentadas nesta exposição são tão universais quanto uma fórmula matemática. Poderiam existir em qualquer lugar e época;

2. A obra de arte deve ser inteiramente concebida e formada pelo espírito antes de sua execução: cada arranjo de José Patrício deriva de uma regra mentalmente definida e seguida à risca;

3. A obra deve ser construída com elementos puramente plásticos, como planos e cores, de forma que o trabalho final não tenha outra significação senão “ele mesmo”: avesso à representatividade, José Patrício cria estruturas que instauram, cada uma, um elemento novo no mundo, relacionado apenas à ideia matemática que o formou;

4. A construção da obra deve ser simples e controlável visualmente: é possível identificar a regra numérica que conduziu à feitura da obra, como, por exemplo, sete peças pretas, seguidas de seis peças cinzas, seguidas de cinco peças cinza claro etc., até o branco;

5. A técnica deve ser mecânica: as obras de José Patrício são feitas pela repetição mecânica de um gesto manual, de encaixe, executado da mesma maneira qualquer que seja a mão que manipule a peça;

6. Esforço pela clareza absoluta: não há nada que não esteja à vista nas obras de José Patrício;

Dando um passo para além da racionalidade concretista, cada obra de Patrício incita questionamentos sobre o tempo. E é aí que há o diálogo com o Neoconcretismo. Não interessa tanto a excitação intelectual que a matemática explícita causa no espectador, aquela em perseguir a regra formadora da composição. Muito mais importante é o efeito sensorial, provocado pelo cinetismo óptico das peças, e o efeito psicológico, que se desdobra em várias questões temporais. Ou, dizendo isso com uma citação do Manifesto Neoconcreto,

“terá interesse cultural específico determinar as aproximações entre os objetos artísticos e os instrumentos científicos, entre a intuição do artista e o pensamento objetivo do físico e do engenheiro. Mas, do ponto de vista estético, a obra começa a interessar precisamente pelo que nela há que transcende essas aproximações exteriores: pelo universo de significações existenciais que ela a um tempo funda e revela.”

Uma obra como Expansão e retração tonal é matematicamente decifrável enquanto constituída por dois quadrados e por movimentos contrários, um centrípeto e outro centrífugo, de distribuição das peças do gradiente de cinzas. É matematicamente compreensível também que as carreiras das bordas estendam-se, sem alterar a cor das peças, por mais algumas voltas na periferia do tabuleiro, resultando em listras de preto e branco. Eis o algoritmo. Mas saber disso não esgota a obra.

Sensorialmente, essa composição parece sugar o olhar para o centro de cada quadrado, que é iluminado de um lado e escuro do outro. As listras pretas e brancas das bordas confundem a percepção: são duas ou três faixas de cada cor? A análise da obra fica ainda mais interessante quando aborda as reações psicológicas do espectador que encara os dois vórtices da composição. O que eles são? A autonomia nua e cruaproduz uma espécie de aflição semiológica. Mesmo se reconhecermos a ligação com o cotidiano que as peças de quebra-cabeça sugerem – algo mais facilmente identificável nos dados e dominós de outras séries de José Patrício –, elas desafiam, em sua totalidade estrutural, nossos esforços de conectá-las a algo previamente conhecido. É como se elas fossem os “quasi-corpus” do Manifesto Neoconcreto: “um ser cuja realidade não se esgota nas relações exteriores de seus elementos; um ser que, decomponível em partes pela análise, só se dá plenamente à abordagem direta, fenomenológica”.

As obras da exposição Potência criadora infinita são seres que exigem convívio para serem conhecidos. Resta-nos entrar na relação de ser para ser com a obra, que é extremamente independente, autossuficiente, como se pudesse viver muito bem sem nosso olhar. Ela certamente não é um organismo vivo, mas é um organismo estético, o que está para além do mero objeto. Ora, o que confere o caráter de independência e silenciosa existência a esses trabalhos é justamente o tempo. Eles foram laboriosamente construídos no tempo, receberam tempo da mão que encaixou cada peça do quebra-cabeça. E agora, pulsam em uma temporalidade perene, que tem a eternidade da matemática. E nós, espectadores, somos tão mais finitos do que isso.

Este texto foi originalmente escrito como apresentação da exposição individual de José Patrício Potência Criadora Infinita, na Galeria Nara Roesler, São Paulo, em maio de 2021.

Potência Criadora Infinita: a obra de José Patrício

Everything in the world, in its immeasurable variety, consists of a finite number of atoms that recombine to form every flower, every hair, every stone, every piece of plastic. It is an immense quantity of particles of a magnitude far greater than the human intellect can conceive. Huge, unimag inable, but finite. What is infinite is the creative power of combinations between these atoms. We call this the infinite power of Nature.

José Patricio’s work is an exercise in invoking this creative force. From a fixed number of elements, such as dominoes or puzzle pieces, Patricio elaborates variations that play with the sequential possibilities of the chosen elements.

The artist’s most recent works use identical plastic pieces whose colors vary in a gradient of twenty-two shades of gray, ranging from white to black. The tonal economy highlights the combinatorial structure of each work, allowing for the identification of the rule that generates the uniqueness of each work.

The artist’s task is to devise a mathematical formula for each composition of pieces within the gray gradient. Thus, he starts a piece in white and goes on to black, and then starts the sequence again, mounted in spiral rows, from the edge to the center of a board. In another work, the same ordering begins in the center and opens itself towards the edges. In yet another piece, the gradient follows the diagonal lines from the vertices of the board to its center, and so on… finitely. Unlike Nature, the time that the artist has to exercise this creative power is finite.

José Patricio’s insistence on the repetition of the creative process is a struggle against the painful limit of time available for each human being to create. In this sense, it is possible to understand his work as an exercise in questions of time. Every object that leaves the artist’s studio not only carries the time of the craftsmanship involved in its creation, but above all, also holds a key to understanding temporality. What one deciphers with the long contemplation of these spirals is not the forming rule of the sequence, but rather the fundamental enigma: how can we—piece by piece, step by step—constitute a charming movement in life within the time we have?

Time is also the element that carries José Patri’cio’s work from the guidelines defined by the Concrete Art Manifesto, from 1930, to the sensitivity of the 1959 Neoconcrete Art Manifesto. The first, launched in Paris by the Dutch artist Theo van Doesburg, advocated that the art of a new era should follow six characteristics, easily identifiable in José Patri’cio’s work:

  1. Art is universal: produced in Pernambuco in the last two years, the compositions presented in this exhibition are as universal as a mathematical They could exist anywhere and at any time;
  2. The work of art must be entirely conceived and formed by the spirit before its execution: each arrangement by José Patricio derives from a mentally defined rule which is strictly followed;
  3. The work must be built with purely plastic elements, such as planes and colors, so the final work has no other meaning than “itself”: averse to representativeness, José Patricio creates structures, all of which establish a new element in the world, related only to the mathematical idea that formed it;
  4. The construction of the work must be simple and visually controllable: it is possible to identify the numerical rule that led to the making of the work, such as seven black pieces, followed by six gray pieces, followed by five lighter gray pieces, and so on until the white ones;
  5. The technique must be mechanical: José Patricio’s works are made by the mechanical repetition of a manual gesture, of fitting, carried on the same way whatever the hand that manipulates the piece;
  6. Striving for absolute clarity: there is nothing that is not in sight in José Patricio’s works;

Taking a step beyond concretist rationality, every work by Patricio incites questions about time—and this is where there is a dialogue with Neoconcretism. The intellectual excitement that explicit mathematics causes in the viewer, the pursuit for the forming rule of the composition does not matter as much as the sensory effect caused by the optical kinetics of the pieces, and the psychological effect that unfolds in various temporal issues. Or, as stated by the Neoconcrete Manifesto,

it will be of specific cultural interest to determine the approximations between artistic objects and scientific instruments, between the artist’s intuition and the objective thoug ht of the physicist and the engineer.

But, from the aesthetic point of view, the work becomes of interest precisely for its possessions in what transcends these external approaches: for the universe of existential meanings that it founds and reveals at the same time.

A work such as Expansâo e retragao tona/ [Tonal Expansion and Retraction] is mathematically decipherable, as it consists of two squares and opposite movements, one centripetal and the other centrifugal, in the distribution of the pieces of the gray gradient. It is also mathematically understandable that the edgy rows extend themselves, without changing the color of the pieces, for a few more turns at the periphery of the board, resulting in black and white stripes. Here’s the algorithm. But knowing this does not exhaust the work.

Sensorially, this composition seems to draw our eye to the center of each square, which is bright on one side and dark on the other. The black and white stripes on the edges confuse perception: are there two or three bands of each color? The analysis of the work becomes even more interesting when it addresses the psychological reactions of the viewer who faces the two vortexes of the composition. What are they? Naked, raw autonomy produces a kind of semiological distress. Even if we recognize the connection with everyday life that the puzzle pieces suggest—something more easily identifiable in the dice and dominoes of other series by José Patri’cio —, they defy, in their structural totality, our efforts to connect them to something previously known. It is as if they were the “quasi-corpus” of the Neoconcrete Manifesto: ’a being whose reality is not limited to the external relations of its elements; a being that, decomposable in parts by analysis, is only fully given to the direct, phenomenological approach.’

The works of the exhibition josé Patricio: In finite Creative Power are beings that demand coexistence to be known. All we can do is to start this relationship, from being to being, with the work, which is extremely independent, self-sufficient, as if it could live well without our eyes.

It is certainIy not a living organism, but it is an aesthetic organism, which is beyond the mere object. And what gives these works the character

of independence and silent existence is precisely the time. They were laboriously built in time, given time from the hand that fit each piece of the puzzle. And now they pulse in a perennial temporality, which has the eternity of mathematics. And we, the viewers, are much more finite than that.

This text was originally written as a presentation of a José Patrício’s individual exhibithion  Potência Criadora Infinita, at Galeria Nara Roesler, São Paulo, in May 2021.